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A mãe perdida

Written by allenporto

O romance “A filha perdida”, de Elena Ferrante, é tão interessante quanto incômodo. Transitei entre a ira e a compaixão, entre a paciência e a irritação ao longo de cada página.

O livro conta a história de Leda, uma professora universitária perto dos seus 50 anos, que viaja de férias para o sul da Itália e encontra uma família napolitana na praia.

Enquanto observa Nina, seu esposo Toni, sua filha Elena e a bonequinha Nani, Leda passa por um turbilhão de sentimentos e pensamentos que revelam algumas das questões profundas de seu coração. É remetida às suas questões familiares — seu relacionamento com o ex-marido e suas duas filhas, Bianca e Marta.

Desde o início, deixemos claro: é preciso apreciar a coragem e honestidade da abertura de Leda. Talvez muitas mulheres apenas pensem e sintam tais coisas, sem nunca percebê-las conscientemente, menos ainda vocalizá-las de alguma maneira. Leda, de certa maneira, é bastante autoconsciente: consegue descrever seus pensamentos e sentimentos com notável clareza.

Mas essa é a grandeza e a desgraça de Leda: a honestidade de seu relato manifesta um coração egoísta e ressentido. Embora ela seja clara quanto a seus pensamentos e sentimentos, a sua interpretação da realidade é terrivelmente errônea, como também é a nossa, em muitos momentos.

O ressentimento de Leda, por vezes, torna o seu relato quase insuportável. Foram os momentos em que senti repulsa pelo que lia. Repulsa, aliás, foi o que Leda sentiu inicialmente, ao ver a família napolitana:

Abri um livro, mas, àquela altura, já estava me sentindo dentro de um emaranhado de sentimentos amargos que, a cada som impactante, cor ou cheiro, amargavam ainda mais. Aquela gente me irritava. (Loc.266)

Por que repulsa? Porque observar a família era considerar suas próprias relações familiares.

Permaneci deitada, porém agitada, com uma sensação cada vez maior de desmoronamento: Bianca e Marta, as dificuldades no meu trabalho, Nina, Elena, Rosaria, meus pais, o marido de Nina, os livros que eu estava lendo, Gianni, meu ex-marido. (Loc.394)

As evidências do coração amargo estão por toda parte. Ao descrever sua experiência como mãe, Leda manifesta o sofrimento por ter que cuidar das crianças, e o coração competitivo a se ressentir do marido, que continuou a vida profissional.

Assim, aos vinte e cinco anos, qualquer outra brincadeira havia acabado para mim. O pai corria mundo afora, uma oportunidade atrás da outra. Não tinha nem o tempo de reparar o que fora copiado do seu corpo, como havia resultado a reprodução. Mal olhava as duas meninas, mas dizia com ternura verdadeira: são iguaizinhas a você. (Loc.424)

Descreve um filho como “um turbilhão de aflições” (Loc.475). As suas memórias trazem continuamente a marca da insatisfação e dor. Mesmo em experiências supostamente agradáveis, como brincar com as filhas, existe o registro de uma agressividade passiva.

Como adulta, sempre tentei me lembrar do sofrimento de não poder mexer nos cabelos, no rosto, no corpo de minha mãe. Por isso fui pacientemente a boneca de Bianca nos seus primeiros anos de vida. Ela me levava para debaixo da mesa da cozinha, era a nossa cabana, fazia com que eu me deitasse. Eu estava esgotada, me lembro: Marta não pregava os olhos de noite, dormia só um pouco de dia, e Bianca estava sempre à minha volta, cheia de vontades; não queria ir à creche e, quando eu conseguia deixá-la por lá, adoecia, complicando ainda mais minha vida. No entanto, eu tentava manter a calma, queria ser uma boa mãe. Deitava no chão, deixava que ela cuidasse de mim como se eu estivesse doente. Bianca me dava remédios, escovava meus dentes, me penteava. (Loc.562)

É assim que podemos entender o resumo: “Fui muito infeliz naqueles anos.” (Loc.569). A lista de lamentos segue: uma filha preferiu um presente do pai ao dela; o sono era pouco; as filhas, enquanto cresciam, foram ficando mais parecidas com o pai do que com ela; a comparação era constante; havia insatisfação profissional; ela havia “deixado de amar” o marido desde o nascimento da primeira filha; havia remorso por não se sentir bem com a família; etc., etc.

Leda conheceu um casal de aventureiros, um homem que havia abandonado a esposa e três filhos pequenos, e uma mulher, Brenda, que havia abandonado o marido. Agora estavam juntos, aventurando-se pela Europa (eram ingleses), sem muita programação e dinheiro. Eram a personificação da liberdade. Esse encontro causou profundo impacto em Leda, e foi o divisor de águas para que, algum tempo depois, ela abandonasse o marido e as filhas. Com o marido, nunca reatou. Retomou a vida com as filhas três anos depois.

Nesse intervalo, buscou a liberdade e o sucesso. Investiu na carreira, envolveu-se com um acadêmico (relacionamento que teve início como um adultério, e também contribuiu para o seu abandono do lar), mas eventualmente retornou.

As lembranças de Leda não vêm recheadas de arrependimento ou juízo moral. Em sua narrativa, as coisas simplesmente “são”, exceto quando se deseja avaliar os outros: a mãe, o marido, as filhas.

Aqui começa o sentimento de compaixão. Leda é uma mãe perdida. É possível compreender o seu cansaço e perceber o peso de expectativas frustradas em sua vida. É verdade que a criação de filhos demanda muito, e, quando o marido é ausente (segundo a interpretação de Leda, o que deveríamos questionar), o peso é ainda maior. É verdade que é difícil para a mulher contemporânea, criada para “ser o centro do mundo”, aprender que o amor exige abnegação. É verdade que a experiência da maternidade é complexa, um misto de prazeres e dores. É verdade que casamentos entram em crise, e os sentimentos podem ir e vir conforme as circunstâncias.

A compaixão, no entanto, não pode se transformar em complacência. A solução para os dilemas de Leda não está, como ela acreditou, em “jogar tudo para o alto” e correr atrás dos seus projetos. Isso se chama egoísmo.

O egoísmo de Leda criou feridas nas pessoas a sua volta. Especialmente em suas pequenas filhas. Na busca por aliviar o seu cansaço, Leda passou como um trator por cima das outras pessoas. Quando o ego está no centro, os relacionamentos se transformam em disputas de poder, e mesmo o contato com um ser pequenino passa a ser visto como o dilema entre “servir a você” ou “ser eu mesmo(a)”. A solução encontrada por Leda foi o rompimento do pacto. Como a história demonstra, agora, quase 30 anos depois, o seu coração continua amargo.

Existiria outro caminho para Leda? Sim.

Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso. Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim, pois sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para as suas almas. 30 Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve”. (Mateus 11:28–30, NVI)

O cansaço de Leda não seria vencido pela busca por autonomia, mas exatamente pelo caminho inverso, o da autonegação. Mulheres cansadas podem encontrar verdadeiro alento ao encontrarem a cruz. A sua luta por “conquistar a vida” pesa sobre seus ombros como um fardo terrível. Mas quanto alívio experimentariam ao conhecer aquEle que carregou o fardo em nosso lugar!

É verdade que muitos planos de Leda não seriam concretizados. Mas de que adianta ganhar o mundo e perder a alma? De que adianta ter sucesso acadêmico e perder a família, ou alimentar um coração ressentido?

Não é à toa que a última tentativa de intimidade descrita no livro terminou em Leda sendo rejeitada. O egoísmo é fatal.

Existem mulheres como Leda por aí. Que o seu fim seja diferente.

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