Caneta

Como nascem os conflitos

Written by allenporto

De onde vêm as guerras e contendas que há entre vocês? Não vêm das paixões que guerreiam dentro de vocês? (Tiago 4.1, NVI)

Você lembra de sua última discussão? Talvez tenha sido hoje mesmo, no facebook, ou com seu marido, sua esposa, seu pai, seu filho ou seu irmão/irmã. Talvez você tenha dado origem à briga, ou tenha sido levado pelos ataques do outro. O fato é que os conflitos — as “tretas”, alguém diria — fazem parte de nossa experiência.

Mas como nascem os conflitos? Por que temos que vivenciar momentos tão dolorosos de desentendimento com amigos e familiares? Por que alguns de nossos relacionamentos acabam sofrendo rupturas tão intensas, que deixam de existir?

Entender a dinâmica de nossos conflitos pode ser importante para evitarmos muitos problemas, e restaurarmos alguns relacionamentos quebrados.

4 etapas dos conflitos

A Bíblia nos ajuda a perceber como a coisa funciona: o texto de Tiago 4 afirma que as guerras em nossos relacionamentos surgem das paixões que há dentro de nós. Em outras palavras, os nossos desejos são peça fundamental para compreender os conflitos.

Ken Sande e Tom Raabe, no livro “Os conflitos no lar e as escolhas do pacificador1, providenciam uma visão bastante interessante e didática para percebermos a natureza e origem das  confusões relacionais. Eles descrevem quatro etapas pelas quais passamos no desenvolvimento de uma briga.

Etapa 1: Eu desejo

Começamos com um desejo. Querer algo não é pecado, dependendo do alvo de nossa ambição. A maioria de nossos desejos é inofensiva — queremos respeito, amor, dinheiro, melhor posição no trabalho, uma televisão melhor, um carro mais confortável, mais romance no relacionamento, etc. Não é errado, em si, desejar algo. Mesmo aqueles que estão plenamente satisfeitos em Deus desejam mais do Senhor. O desejo expressa algo de nossos interesses e paixões. Todos desejamos algo.

Etapa 2: Eu exijo

Mas há ocasiões em que um desejo toma proporções maiores do que deveria. Às vezes, de tanto querermos algo, passamos a reinterpretar a realidade a partir desse desejo. É quando as frases de auto-engano aparecem. Uma delas estabelece: “eu mereço”. Talvez você já tenha usado essa máxima. Após um dia cansativo, cheio de trabalho, você começa a alimentar o desejo de chegar em casa e ter uma noite livre assistindo netflix, comendo besteira e não se preocupando com nada mais. No fim do expediente, com o desejo ainda mais intenso, você começa a justificar suas expectativas com a afirmação “eu mereço esse descanso”. Para piorar, o retorno para casa encontra um trânsito insuportável, o que, em sua interpretação, prova o seu ponto de que o descanso é mais do que merecido. E então você chega em casa e descobre que a sua mãe, ou esposa, tem uma lista de tarefas para você cumprir. Game over.

Outra máxima utilizada para justificar e alimentar o desejo é a típica “eu preciso!”. Crianças são mestres em transformar desejos em “necessidades”. “Eu preciso daquele pacote de figurinhas do Ben 10!”; “eu preciso daquele caderno que brilha no escuro!”. Nós, adultos, também sabemos jogar esse jogo: “Eu preciso daquele sapato novo” [mesmo tendo 350 pares em casa] — diz a mulher; “preciso do novo iPhone” — diz o sujeito com um celular em perfeitas condições.

Vemos essas pequenas justificativas como insignificantes, mas a realidade é que estamos reafirmando nossos desejos, e reinterpretando a realidade a partir deles. Como resultado dessa nova maneira de enxergar as coisas, criaremos uma divisão entre o que nos ajuda a ter o desejo satisfeito, e o que nos atrapalha de satisfazê-lo. Isso funcionará, obviamente, para as pessoas também. As pessoas que nos ajudarem a ter satisfação, serão bem tratadas, já as que não contribuírem, ou as que atrapalharem…

Eu julgo

A terceira etapa é a do juízo. Uma vez que eu estou observando o mundo com as lentes do desejo desordenado, passo a avaliar as pessoas na base das minhas expectativas.

Tomemos o exemplo acima mencionado, do indivíduo que queria paz ao chegar em casa. Um desejo bom ganhou proporções maiores, a ponto de ele achar que merecia e que precisava disso. Ao chegar, encontrou sua esposa com uma lista de tarefas para serem realizadas: desde trocar as lâmpadas do terraço, a apertar o parafuso da bicicleta do seu filho.

Ao encontrar tal lista, o homem avalia as coisas a partir de sua expectativa, e passa a fazer uma série de juízos. Talvez o primeiro deles seja que “ninguém se importa com ele” — o coitado passou o dia sendo explorado no trabalho, e agora continua a exploração em casa. Outra conclusão é a de que “sua esposa está fazendo isso de propósito”. Com tantos outros dias e horários para consertar essas coisas, por que ela aparece com isso agora? Pode ainda julgar o seu filho: “esse irresponsável não sabe cuidar da bicicleta dele, e agora cabe a mim resolver seus problemas”.

E assim ele seguirá fazendo seus julgamentos, que podem ser expressos em voz alta ou não, mas que determinarão a sua atitude diante das pessoas à sua volta. Já que não contribuíram para a sua satisfação, são suas inimigas, pelo menos nesse ponto.

4 Eu castigo

A última etapa são as ações concretas além dos juízos emitidos internamente. Convencido de suas avaliações sem dar o benefício da dúvida aos outros, a pessoa guiada por um desejo desordenado exercerá a punição dos culpados.

O homem do exemplo acima poderá agir de maneiras ativas ou passivas. Ativamente ele poderá gritar com sua esposa, soltar palavras ofensivas, trocar as lâmpadas com uma atitude grosseira, e fazê-la se sentir culpada por pedir [pela milésima vez] o que pediu. De maneiras passivas, ele pode dar o “tratamento do gelo” a sua esposa. Fugirá emocionalmente dela, punindo-a por não permitir que ele descansasse. Poderá ficar monossilábico por um tempo, privando-a da intimidade que vem da comunicação, ou mesmo de toques e olhares.

São muitas as maneiras de castigar alguém, variando nesse espectro das abordagens ativas e passivas.

Quem é você no jogo do bicho?

Onde você está nesse cenário? Talvez você consiga lembrar de sua última discussão, mas não tenha percebido adequadamente o que estava por trás dela. Que desejo seu foi frustrado? O desejo de ser respeitado publicamente? O desejo de ser amado? Esse desejo tomou proporções maiores do que deveria? Você passou a exigi-lo dos outros? Que avaliações você emitiu acerca das pessoas que frustraram as suas expectativas? E, finalmente, como você castigou tais pessoas?

Reconhecer esse padrão pode ser crucial para corrigirmos a nossa rota. Podemos valorizar os nossos desejos, mas devemos deixá-los no seu lugar adequado: são apenas desejos. Não são necessidades. Deus sabe quais são as nossas necessidades, e suprirá todas. Quanto ao resto, alguns desejos serão satisfeitos, enquanto em outras situações viveremos a edificante experiência da frustração.

Talvez esse seja um bom momento para você procurar a pessoa com quem está / esteve em conflito, e pedir perdão, reconhecendo seus desejos fora de ordem, os juízos que você emitiu, e os castigos que executou.

No final, quando os nossos desejos girarem em torno daquilo que vale a pena de maneira última, todas as outras coisas ocuparão o seu lugar adequado.


  1. Publicado em português pela editora Nutra.

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