a Caneta Textos

Insensível

Written by allenporto

Esclarecimentos importantes antes de ler o texto
Este post foi originalmente publicado em 28/12/2015. Gerou algumas reações. Uns celebraram o escrito, destacando-o como tremenda verdade. Outros o odiaram, acusando-o de absurdo. Tais reações são perfeitamente normais: concordar e discordar é parte da experiência humana de troca de idéias.
Curiosa, no entanto, foi a comprovação do meu ponto por parte de alguns críticos. Enquanto eu argumentava que a incapacidade de lidar no campo da imaginação nos torna leitores ruins, algumas pessoas que rejeitaram o meu texto entenderam que eu estava literalmente chamando o “reformado brasileiro” de (1) descerebrado, ou (2) burro. Com esse nível de leitura, destituída de imaginação, o argumento do texto foi fortalecido.
Houve quem quisesse desqualificar o texto falando que “não existe esse negócio de lado direito ou esquerdo do cérebro”. Teriam evitado esse trabalho se lessem a nota de rodapé #1.
Outro aspecto a destacar é o fio condutor do texto, ou, na linguagem da preparação de sermões, a “idéia central”. Alguns tentaram desqualificar o texto demonstrando o problema teológico com a imagem das duas mulheres. À época eu tentei deixar claro, na nota de rodapé #3, que o texto não é uma defesa dessa imagem específica, mas uma crítica de ordem mais abrangente e genérica sobre a atitude dessa abstração chamada “reformado brasileiro” quanto ao campo da sensibilidade. Tenho pouco interesse nessa imagem específica, e não estou disposto a entrar em um debate, seja para atacá-la ou defendê-la.
Com esses esclarecimentos, quase do tamanho do texto, podemos seguir adiante. Ao texto:

O reformado brasileiro não tem o lado direito do cérebro. Explico: dizem os cientistas que nossas percepções e inteligências são “divididas” no cérebro[1]. Do lado esquerdo teríamos a área responsável por lógica, matemática e o raciocínio analítico, enquanto o lado direito lida com o campo artístico, social e emocional.

O reformado brasileiro não tem o lado direito do cérebro. Seu raciocínio é exclusivamente analítico, suas descrições são absolutamente lógicas, e sua expressão religiosa é matemática. Permita-me demonstrar isso melhor:

É natal e você está no facebook. Subitamente, alguém surge com uma imagem — uma obra de arte — que retrata Eva e Maria (ambas são mulheres da Bíblia, você deve conhecer a história). Eva tem, em uma das mãos, o fruto proibido, e uma de suas pernas é envolvida por uma serpente, que se estende até os pés de Maria. A mãe de Jesus está grávida (do Cristo), e singelamente olha para seu ventre, conduzindo as mãos de Eva a tocar-lhe. A serpente, enroscada na primeira mulher, é pisoteada pela última.

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A imagem da discórdia

A imagem é bela. Sem afetações, tem traços simples e próprios. É bem colorida e carrega profundo significado. Está tudo lá: criação, queda, redenção; promessa, gravidez, Jesus; vergonha, conforto, esperança. O que você pensaria?

Talvez você se alegrasse em ver uma pintura condensando tanta realidade bíblica. Mas não se você for um reformado brasileiro. Nesse caso, você prontamente estrala os dedos diante do teclado e vaticina: HERESIA!

Por quê? Escolha a razão: porque existe ênfase em Maria, porque é ela quem pisa a serpente, porque o fruto parece uma maçã e isso não está na Bíblia…

No fundo, acredito que a razão é aquela descrita no início: porque o reformado brasileiro não tem o lado direito do cérebro, e simplesmente não sabe o que fazer com uma obra de arte.

Pra não cometer injustiça, é bom reconhecer: depois de ter lido o Calvinismo de Abraham Kuyper, o reformado brasileiro a-do-ra dizer que Rembrandt possuía influência reformada, e que Bach assinava suas partituras com o S.D.G. (Soli Deo Gloria) da Reforma. Contudo, na prática, sua relação com as artes é pragmática — assiste filmes para seu prazer, escuta músicas conforme seu gosto, mas critica qualquer exploração religiosa presente em imagem ou música.

Por que critica? Sem o lado direito do cérebro, tudo o que resta ao reformado brasileiro é análise e lógica; doutrina e proposição. Cada imagem precisa vir com a precisão de uma confissão de fé, senão é herética; cada linha poética precisa trazer as qualificações da teologia sistemática, senão é “fraca”; cada história precisa vir com a lição de moral explícita em forma de doutrina, senão não é edificante.

A atrofia do reformado brasileiro é patética. Não é sem razão que não produzimos músicos, que os artistas se aproximam dos emergentes e dos “teólogos relacionais”, que nossos sermões são aulas de química, e que o homem lá fora sequer pretende nos ouvir.

A tragédia é que, na busca pela precisão teológica, o reformado brasileiro não consegue sequer ler a Bíblia adequadamente. Por lhe faltar aquele senso de degustação da poesia, e por não existir capacidade de imaginação, ele está privado de apreciar os Salmos e as narrativas. Sempre procurando um ponto para o sermão, ou uma doutrina para apresentar, deixa de se deleitar em realidades que não são tão “explicáveis” assim.

Se nossas cosmovisões são narrativas, como sugerem alguns [2], então a incapacidade de lidar com estórias sela o destino do reformado brasileiro: preso em sua narrativa pessoal, que envolve ortodoxia e zelo, jamais atuará no campo da compreensão e interação com as demais narrativas à sua volta, e, desse modo, continuará como uma voz não ouvida na cultura, exceto quando gritar para condenar mais uma obra de arte [3].

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[1] O meu ponto não é discutir essa questão especificamente. Há estudos indicando que a divisão entre os hemisférios do cérebro não é tão rígida assim. Cf. este link

[2] Uma boa discussão da cosmovisão como narrativa está em TURNAU, Ted. Popologetics. Phillipsburg, NJ: Presbyterian and Reformed, 2012.

[3] Você ainda pode achar a imagem acima feia, ou até imprópria teologicamente. O episódio em questão apenas reflete uma atitude mais ampla diante das artes em geral.

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