a Caneta

Como netflix e spotify refletem o evangelho

“Então, de repente, no meio dessa desarrumação feroz da vida urbana, dá na gente um sonho de simplicidade.” Rubem Braga

Alguém já me apelidou de “pastor high tech”. Na ocasião era fácil fazê-lo, pois eu auxiliava um pastor com quase o triplo da minha idade. Embora eu não me considere um nerd ou geek, gosto de tecnologia e tento fazer uso intencional dela para crescimento pessoal e comunitário.

O uso das tecnologias novas é tarefa difícil. Por um lado há sempre o medo do desconhecido — “o que será que pode acontecer se criarmos um grupo da igreja no whatsapp?” —; por outro, há o risco de se encarnar as narrativas embutidas em tais dispositivos e aplicativos — criar uma conta de sua igreja no instagram pode estimular o narcisismo que reina naquele ambiente. Ainda assim, a inércia não é a melhor postura. Considerar as possibilidades e interagir de forma crítica com os movimentos de nosso ambiente pode tanto nos proteger dos riscos, quanto nos ajudar com os benefícios de algumas ferramentas.

Exemplos positivos disso podem ser listados desde o uso da imprensa por Lutero1,até a atual onipresença de microfones e sistemas de som nas igrejas (imagine se o seu pastor ainda tivesse que gritar regularmente um sermão por uma hora para ser bem ouvido por toda a igreja!).

Há muito mais coisa para se pensar acerca de benefícios e riscos da tecnologia, mas eu tenho em mente algo específico que, de certo modo, ainda está nascendo por aqui. Falo da transição do modelo de posse para o modelo de acesso na maneira de lidar com produtos e serviços.

Nós experimentamos a era das posses. Ficávamos (e ficamos) impressionados com as grandes coleções de discos e cds dos amigos, ou com a gigantesca biblioteca do professor. Sonhávamos com o dia em que teríamos dinheiro para desfrutar de posses semelhantes às de alguém que admiramos. Possivelmente havia um elemento de cobiça ali.

Talvez nós tenhamos adquirido muitas posses. Compramos tantos livros a ponto de não mais conseguir empilhá-los em nossas prateleiras, e tivemos de fazer um arranjo para guardar as milhares de capas de DVDs de filmes e documentários comprados. A realização, nesse contexto, estava em adquirir aquele produto que seria chamado de “nosso” — ou melhor, “meu”.

A tecnologia tem possibilitado uma nova maneira de lidar com produtos e serviços. Agora a ênfase não está mais na posse, e sim no acesso a esses materiais. Netflix e Spotify despontam como grandes exemplos desse modelo. Em vez de comprar vários DVDs, para assistir poucas vezes e deixar guardados na prateleira, por que não pagar uma assinatura e ter acesso ao filme (e a tantos outros) apenas quando desejar? Da mesma maneira, porque ocupar um quarto inteiro de minha casa com vários cds, se posso tê-los à disposição mediante a assinatura de um pacote musical?

Existem muitas perspectivas para analisar a questão. Eu ainda estou pensando sobre o fenômeno. Mas uma dessas perspectivas tem a ver com as conexões do modelo de acesso com o evangelho.

A maneira como lidamos com os bens e serviços está embutida em e reflete uma narrativa. Ao comprarmos itens, contamos uma história a outros e a nós mesmos2. O modo como usamos o que Deus nos tem dado sofre influência e, ao mesmo tempo, influencia o nosso relacionamento com tais produtos.

É verdade que não podemos ser taxativos aqui. Alguém pode ter muitas posses sem ser dominado por uma cosmovisão consumista. Alguém pode viver sem posses e ter um coração materialista. A equação não é exata. Contudo, acredito que o modelo de acesso oferece uma perspectiva que ecoa verdades do evangelho.

Entenda evangelho aqui no seu sentido mais amplo. Há um sentido no qual o evangelho é o relato específico da encarnação, vida, morte e ressurreição do Senhor Jesus. Mas também há a compreensão do evangelho como a história completa contada pela Escritura, que diz respeito à estrutura criação-queda-redenção-consumação. É nesse segundo sentido que eu estou pensando, pois a maneira como lidamos com os produtos responde aos propósitos de Deus para a ordem criada.

Quais são, então, os princípios bíblicos que o modelo de acesso resgata? Vejamos alguns:

1. O modelo de acesso nos lembra da transitoriedade da vida

A vida é como a neblina (cf. Tg.4.14). Surgimos e sumimos dessa terra brevemente. Comparados ao tempo em que a humanidade existe, somos um traço na linha do tempo. Comparados à eternidade, somos menos que um ponto.

O modelo de posse tende a esquecer desse “detalhe”. Buscando o acúmulo, tira os olhos da brevidade da vida, e gasta tempo e energia em ganhar mais e comprar mais, sem perceber que o resultado de seus esforços será nulo diante do que realmente importa. O principal impacto disso está na inversão da ordem de prioridades, tornando-nos, com a perda do referencial de brevidade, improdutivos em nossa maneira de lidar com bens e serviços.

Jesus fala sobre a atitude avarenta de quem vive para acumular. Em Lucas 12, descreve um homem que produziu com abundância, a ponto de seus celeiros não comportarem tamanha produção. Sua meta passou a ser a destruição dos celeiros pequenos, para construir maiores. A esperança era encontrar descanso em meio às posses. Mas o Senhor zomba da estupidez avarenta: “Louco, esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?” (Lc.12.20). Enquanto a energia foi gasta com as posses, a vida revelou sua brevidade com o chamado de Deus.

[box] Salmos 39:5–6 (NVI-PT) 5 Deste aos meus dias o comprimento de um palmo; a duração da minha vida é nada diante de ti. De fato, o homem não passa de um sopro. 6 Sim, cada um vai e volta como a sombra. Em vão se agita, amontoando riqueza sem saber quem ficará com ela.[/box]

É possível ter posses sem um coração avarento. Talvez seja possível acumular riquezas sem dedicar a elas grande parte do tempo, e sem perder de vista a brevidade da vida. Mas acredito que, de maneira geral, o modelo de acesso providencia oportunidades mais consistentes para considerar essa realidade.

Em um gesto simples, como o de ter que pagar a assinatura mensal ou anualmente, temos o lembrete de que o tempo é limitado. Para alguns, o efeito será contrário — a sensação de tempo limitado será um convite para gastarem todo o seu tempo no desfrutar dos acessos —; ainda assim, não terão a sensação de que possuem “todo o tempo do mundo”. Para outros, o lembrete da limitação no tempo funcionará como um símbolo que lhes preservará de viver a vida baseada no acúmulo. Talvez esse lembrete, que pode surgir do próprio sistema de acesso, não esteja presente no modelo de posse.

2. O modelo de acesso nos lembra do conceito de mordomia

Uma das atitudes mais impróprias, e também mais comuns, é a que considera as posses como nossa propriedade final. A sensação de “ter” afeta o “ser”, por vezes redefinindo nossa identidade em torno de bens materiais. Quantos de nós não se sentiram (ou sentem) intelectualmente superiores por causa da vastidão de nossas bibliotecas? Talvez na direção oposta, quantos de nós não se sentem inferiores por não possuirmos tantos livros quanto um conhecido?

Não apenas a identidade é afetada, como toda a postura para com o produto. O senso de propriedade pode nos fazer idolatrar ou desdenhar daquilo que consideramos “nosso”. Alguns cuidarão de seus itens com excessivo zelo, dedicando a eles tempo e ciúmes além do que convém. Outros, como expressão de sua abundância, tratarão tais bens com desdém, sem grande preocupação em cuidar do item (afinal, eles têm muitos outros à sua disposição). Ambas as posturas possuem um problema na percepção do valor do bem — os primeiros para mais, e os últimos para menos. Esse problema pode ser corrigido com o conceito de mordomia.

A doutrina tradicional da mordomia anuncia que eu e você temos a posse das coisas, enquanto a propriedade é do Senhor3. Tudo o que desfrutamos é dádiva de Deus, de maneira que nunca somos os proprietários finais daquilo que está em nossas mãos. Mesmo os itens que compramos com o “nosso” dinheiro, em última análise, são bênçãos de Deus, e pertencem ao Criador e detentor de todas as coisas e pessoas (Cf. Sl.24.1).

Perceber tal realidade altera significativamente a nossa maneira de lidar com a questão. Se tudo o que está em minhas mãos me foi dado por Deus, a minha identidade não é definida pela abundância ou escassez de produtos, mas por minha relação com o Senhor. Paulo reafirma essa realidade enquanto nos apresenta o conceito de contentamento, em Fp.4.11–13:

11 Digo isto, não por causa da pobreza, porque aprendi a viver contente em toda e qualquer situação. 12 Tanto sei estar humilhado como também ser honrado; de tudo e em todas as circunstâncias, já tenho experiência, tanto de fartura como de fome; assim de abundância como de escassez; 13 tudo posso naquele que me fortalece.

O apóstolo não se sente superior ou inferior conforme as circunstâncias ou recursos em suas mãos. Na experiência do contentamento, ele sabe quem é diante de Deus, e isso basta.

A noção de mordomia também permite equilíbrio na maneira de tratar as posses. Assim como eu tenho cuidado em lidar com livros que me são emprestados, reconhecer que tudo o que está em minhas mãos não me pertence de maneira última, deve me fazer agir com zelo e responsabilidade diante de tais bens.

É no modelo de acesso que a noção de mordomia pode ser melhor assimilada e reforçada na mente e coração das pessoas. Ouvir uma música no spotify me lembra que a canção não me pertence. Da mesma maneira, um filme no netflix não me permite ter a sensação de que sou o proprietário final da película.

Singular aqui é o caso do kindle unlimited. Em língua portuguesa, o processo para a leitura dos livros assinados começa com o gesto simples de “baixar”, pelo app ou dispositivo kindle, ou “ler de graça”, pelo site da Amazon. No entanto, no gerenciamento das assinatura, o site mostra ao leitor quais livros foram tomados “emprestados”. Esses livros, no tempo do assinante, deverão ser “devolvidos” à Amazon. Dessa maneira, é patente diante do leitor a realidade de que os livros lidos não lhe pertencem — ele é apenas um possuidor; na visão cristã, um mordomo.

Esses são sinais pequenos e corriqueiros que, para alguns, terão pouco significado. Mas, como nos lembra James Smith, as coisas que fazemos fazem coisas conosco4. O contato regular com as realidades que nos lembram que não somos proprietários dos bens à nossa mão pode ter o efeito cumulativo de reorientar nossa percepção de mundo.

Como já destaquei, não é sensato afetar o domínio da verdade aqui. A palavra final sobre a questão ainda está longe de ser proferida. Conforme o pensamento de cosmovisão, alguém pode interpretar os fenômenos de maneira totalmente diversa daquilo que eles mesmos pretendem comunicar. Dessa maneira, é possível que o modelo de acesso seja um incentivo para ganância e desconsideração da mordomia e da brevidade da vida por alguns. No entanto, enquanto isso é bastante possível, também é possível que as rotinas de acesso contribuam para reorientar o coração em um sentido que percebe e assimila as realidades destacadas acima. Talvez a grande diferença seja que o modelo de posse não favorece, em si, tais percepções, enquanto que o modelo de acesso o faz.

Há outros aspectos a considerar. Nas discussões contemporâneas acerca de modelos sustentáveis de vida, a proposta de acesso permite melhor utilização e reutilização de bens e serviços, com alguma preservação dos recursos naturais. Também poderíamos falar da economia de espaço físico – um dos itens mais valiosos nos grandes centros urbanos – que o novo modelo providencia. Essas últimas vantagens podem refletir aspectos do mandato criacional de zelar pelo mundo de Deus.

Dessa maneira, embora devamos ser cautelosos em celebrar as novidades, há, pelo menos, vestígios de possibilidades interessantes surgindo com essa nova proposta de utilizar produtos e serviços. Para considerar razões simples, o modelo de acesso nos permite considerar a brevidade da vida, lembra-nos do conceito de mordomia, e nos permite responder ao mandato criacional de zelar pelo mundo de Deus. Pode nos livrar da vaidade das posses e nos fazer observar o mundo com o foco no que é eterno. Em outras palavras, Spotify, Netflix e Kindle unlimited podem ser grandes lembretes do evangelho.


  1. O impacto dessa mídia foi fundamental para o sucesso da Reforma.

  2. Para compreender melhor o papel das narrativas em nossa percepção de mundo, confira COSPER, Mike. The Stories we tell: how tv and movies long for and echo the truth. Wheaton, Illinois: Crossway Books, 2014. Kindle edition. Loc. 302 – 457; e TURNAU, Ted. Popologetics: popular culture in christian perspective. Phillipsburg, New Jersey: P&R Publishing, 2012. Kindle edition. Loc. 413 – 462.

  3. A distinção entre posse e propriedade é utilizada no campo do direito civil. Para aprofundar a compreensão, cf. “Posse e Propriedade: reflexão guiada pelo Novo Código Civil e pela Constituição Federal”, disponível em: http://www.conteudojuridico.com.br/artigo,posse-e-propriedade-reflexao-guiada-pelo-novo-codigo-civil-e-pela-constituicao-federal,38429.html.

  4. Todos os tipos de ritmos e rotinas culturais são, na verdade, rituais que funcionam como pedagogias do desejo precisamente porque eles tácita e secretamente nos treinam a amar uma certa versão do Reino, ensinam-nos a desejar por alguma rendição à boa vida. Essas não são apenas coisas que fazemos, elas fazem coisas conosco. SMITH, James K. You are what you love: the espiritual power of habit. Grand Rapids, Michigan: Brazos Press, 2016. Loc. 411. Kindle edition. Minha tradução.

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