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O gramado é neutro?

Written by allenporto

O ouro olímpico no futebol é nosso! Numa reviravolta surpreendente, a desacreditada seleção brasileira se tornou campeã, para alegria geral da nação.

Mas, para além da história de superação, outra notícia ganhou espaço, relacionada ao ouro olímpico. Após a suada vitória, o jogador Neymar colocou uma faixa branca em sua cabeça, com o texto “100% Jesus”. Não tardou até os noticiários informarem que o COI (Comitê Olímpico Internacional), enviará reclamação formal à delegação brasileira, protestando contra a “polêmica” faixa. “O diretor-executivo do COI, Christoph Dubi, informou que uma carta será enviada à delegação brasileira para protestar e relembrar os dirigentes que tais comportamentos não são aceitáveis”, informa o portal IG1.

O gramado é neutro?

Mas por que uma faixa desse tipo causaria tal polêmica? Por que, como descreve a matéria, tal comportamento “não é aceitável”? Que grandioso ultraje estaria por trás de uma afirmação de natureza religiosa? Ou que razões levariam o COI a proibir manifestações de livre consciência?

A polêmica não pode ser entendida se não conhecermos o conceito de secularismo.

O que é secularismo?

O filósofo Charles Taylor indica as possibilidades de compreensão do conceito2. Em um sentido, secularismo está relacionado à separação entre Igreja e Estado. Mas, diz o filósofo, a idéia requer mais do que isso: envolve liberdade de crença — ninguém será forçado a adotar qualquer pensamento religioso ou cosmovisão —, deve haver igualdade entre as pessoas de diferentes persuasões religiosas ou ideológicas — ninguém será privilegiado ou excluído por sua fé —, e todas as perspectivas devem ser ouvidas e consideradas no processo de definir o que é a sociedade e como ela se organizará. A questão que segue é qual critério definirá conceitos como liberdade, igualdade e fraternidade. O secularistas definem a razão como o fundamento deste projeto. E assim está posto o problema.

O mito da autonomia da razão

Há uma série de dificuldades com o projeto secularista. Podemos começar com a própria idéia de razão como autoridade final sobre o espaço público.

O primeiro problema com essa proposta é a crença de que a razão é livre de preconceitos e pressupostos, funcionando como uma entidade autônoma capaz de tudo identificar e discernir. A palavra “crença”, acima, não é gratuita. A ideia de que a razão é isenta de influências é um exercício de fé, antes de análise racional. Mas eu divago.

A razão é autônoma? Importantes estudiosos têm questionado tal compreensão, indicando que nossa racionalização é dirigida por nossa cosmovisão.

James Sire3 argumenta que “na base de todo pensamento — todas as nossas ruminações sobre Deus, sobre nós mesmos e sobre o mundo à nossa volta — está uma cosmovisão”. A cosmovisão seria formada não apenas por uma espécie de mapa ou interpretação racional da realidade, mas por pressupostos e compromissos de natureza pré-teórica.

Sire passeia por alguns dos principais filósofos para demonstrar a sua compreensão e uso do termo “cosmovisão”. Desde Wilhelm Dilthey, para quem as cosmovisões são “um conjunto de categorias mentais resultantes da profunda experiência de vida que determinam essencialmente como uma pessoa entende, sente e responde ao que percebe no mundo à sua volta e aos enigmas que ele apresenta”4, passando por Nietzsche, para quem as cosmovisões eram produtos de seu tempo, lugar e cultura, Wittgenstein, que usava a expressão “retrato do mundo” e desconfiava de qualquer pretensão de compreender o mundo intelectualmente, até Michel Foucault, que utilizava o termo “episteme”, e para quem as cosmovisões são construções linguísticas de uma elite poderosa. Em maior ou menor grau, tais pensadores fazem uma distinção entre o mero exercício da razão e a cosmovisão de alguém.

Aprofundar a questão está para além dos limites de um simples post de blog, mas basta identificar que existem “forças” operando por trás dos nossos raciocínios, e isso é reconhecido mesmo por quem não é cristão. Nas palavras do professor Fabiano Almeida:

No final das contas, todo sistema teórico (proposta filosófica, teológica, científica, etc.) ao qual aderimos conscientemente, nada mais é que a expressão objetiva, e por vezes institucionalizada (quando legitimada pela sociedade), dos pressupostos tácitos e subjetivos que moldam a nossa cosmovisão e mundo pessoal. 5

Reconhecer que a razão não é neutra, como pressupõe o pensamento secularista, levanta questões sobre a validade da razão como autoridade última para gerenciar o espaço público.

Isso seria rejeitar a razão? De maneira nenhuma, mas indicar aos secularistas que o seu projeto é ingênuo e o preço de tal ingenuidade é bastante alto a se pagar. A Revolução Francesa, celebrada por secularistas por seu projeto racional, resultou em um terrorismo do qual nem o próprio Robespierre escapou.
Uma das manifestações dessa intolerância tirânica está na pressão secularista pela privatização da fé. O secularismo deixou de defender apenas a separação entre igreja e Estado. Ele passou a reprimir a religião em suas manifestações públicas. Na base desse pensamento está uma visão dualista da realidade, na qual o aspecto público da vida seria racional e neutro, enquanto o aspecto privado poderia dar lugar ao irracional e religioso. A partir deste credo, alguém pode usar a faixa “100% Jesus” em seu quarto, ou em sua igreja, mas nunca em um estádio de futebol. Alguém pode falar de Deus em seu grupo de oração, mas nunca em um parlamento. Alguém pode fazer uma oração silenciosa em sua mente, mas nunca em seu escritório profisional.

O secularismo, dessa maneira, invade o lugar de Deus para dizer onde a fé de uma pessoa tem lugar. Coloca-se no trono soberano da existência humana, para delimitar os espaços de sua devoção e de alcance da divindade. O secularismo é uma religião totalizante, que pretende orientar cada aspecto da vida humana.

A resposta cristã

Como um cristão responde ao projeto secularista? Algumas possibilidades surgem no cenário, e, de fato, já são adotadas por alguns.

A primeira resposta seria a capitulação. Não são poucos os cristãos que já assimilaram a cosmovisão secularista, e vivem de proclamar chavões como “o Estado é laico!”. Tais cristãos reprimiram a sua experiência religiosa à dimensão privada, e passaram a acreditar que sua fé nada tem a contribuir para a experiência social mais ampla, exceto por um sentimento abstrato de amor e paz, que poderia vir de qualquer pacifista não-cristão, e não tem fundamento explícito na verdade bíblica. Tais cristãos até mesmo fazem coro junto aos censores da igreja, taxando de fundamentalistas aqueles que exibem seus distintivos cristãos nas discussões públicas, e zombando da ortodoxia como manifestação atrasada e intolerante. O cristianismo não sobreviverá nesse ambiente, e tais cristãos cada vez menos se identificarão com o Cristo, e cada vez mais com o espírito da época.

A segunda resposta é a da agressão. Alguns cristãos, na tentativa de permanecer fiéis ao ensino bíblico sem capitular às pressões secularistas, adotam uma postura essencialmente militante e estridente. Sem falar a verdade em amor, acabam por reforçar a narrativa secularista de que quando a religião se manifesta publicamente, ela o faz em seu caráter intolerante. Talvez na raiz desta postura esteja o amor pela verdade. Talvez esteja o medo de perder a liberdade de crença. Talvez esteja a inabilidade de discernir o projeto secularista, a dificuldade em articular a própria fé, e a compensação destas fraquezas com estilo e tom em volume exacerbado. Tal postura causa maior isolamento dos religiosos, ironicamente contribuindo para a privatização da fé que esses cristãos odeiam.

A terceira resposta, que eu pretendo defender aqui, é a de amorosa resistência criativa. Trata-se de não capitular ao espírito da época, nem adotar uma postura essencialmente agressiva, mas agir com discernimento. A postura é amorosa, pois tem o amor pelo Senhor e pelo próximo como filtro de ação. Mesmo nas respostas duras que precisam ser dadas ao fundamentalismo secularista, existe motivação amorosa. A postura é de resistência (negativa), por reconhecer que já existe uma pressão externa em funcionamento no ocidente, buscando silenciar a religião — e especialmente o cristianismo, a religião do homem europeu branco — e aprisioná-la em círculos mínimos e irrelevantes para a sociedade. Enquanto os censores públicos ordenam aos cristãos que calem sua voz, escutam a resposta dada por Pedro e João em Atos 4.19:

19 Mas Pedro e João responderam: “Julguem os senhores mesmos se é justo aos olhos de Deus obedecer aos senhores e não a Deus. 20 Pois não podemos deixar de falar do que vimos e ouvimos”.

Mas a postura não é apenas negativa. Ela também é positiva — criativa. O cristão lida com o secularismo, não apenas discernindo seus fundamentos, denunciando as suas fragilidades internas, revelando o seu caráter totalitário, e resistindo a esse projeto de poder. Ele oferece uma alternativa. Os cristãos trabalham, no tecido social, para criar algo novo. Eles manifestam a beleza da fé por meio do cumprimento de suas vocações. Eles agem em direção ao próximo — seja ele cristão ou ateu — com respeito e graça. Eles embelezam o mundo com as obras de suas mãos e anunciam a presença de Deus em todas as esferas da vida. Dessa maneira, eles ilustram para todos como a sua fé não apenas não condiz com a narrativa secularista, como lida de maneira bem mais equilibrada com a pluralidade no contexto social contemporâneo.

Os gramados da vida

Os comitês internacionais estão por aí, enviando as suas reclamações contra as manifestações públicas de fé. Eu e você podemos revelar a ingenuidade e intolerância do secularismo, criando lindas jogadas que embelezam os torneios, e revelando o motivo básico6 por trás de nossas vidas: nosso Deus Criador, nossa fragilidade pecaminosa, e a redenção realizada em Jesus.


  1. http://esporte.ig.com.br/2016–08–21/neymar-faixa-jesus-coi-reclamar.html
  2. http://iasc-culture.org/THR/archives/Fall2010/Taylor_lo.pdf
  3. SIRE, James. Dando nome ao elefante: cosmovisão como um conceito. Braília, DF: Monergismo, 2012. Loc.319. Kindle edition.
  4. Ibid., loc.495.
  5. Ibid., loc. 117.
  6. Estou usando o termo “motivo básico” em um sentido bastante livre aqui, mais relacionado às motivações para as nossas ações. Mas também escolhi esse termo por indicar o pensamento de Herman Dooyeweerd, que fala de “motivos básicos” como o tema, a narrativa ou a força motriz por trás das perspectivas e ações dos homens em determinados períodos da história. Para conhecer mais sobre isso, cf. KALSBEEK, L. Contornos da filosofia cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2015. p.55–59.

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