a Caneta

Os pastores e a criatividade

Written by allenporto

O pastor foi vocacionado para ser criativo. “Como assim?” — alguém perguntaria. Eu explico.

Primeiro, é preciso dizer que normalmente não se associa criatividade ao trabalho de um pastor. Quando se pensa em trabalho criativo, são as pessoas “alternativas” que surgem na mente. Artistas, homens e mulheres expansivos e comunicativos, talvez até mesmo pessoas tecnologicamente atualizadas possam entrar na lista. Mas pastores… bem, é melhor deixar para lá.

Criatividade é mais do que pintura e crafting. Como o nome sugere, tem a ver com o trabalho de criação realizado por alguém. E qualquer um pode criar.

A criatividade vem de Deus

De fato, a criatividade tem um significado especial na visão cristã da realidade. Ela é tanto um traço da imagem de Deus no homem, quanto um chamado de Deus para a vida humana. Como um traço da imagem de Deus, compreendemos que, assim como Deus é criativo — confira Gênesis 1 e 2, depois dê uma olhadinha à sua volta e comprove — o homem também carrega marcas de criatividade em si. A Bíblia diz que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, levando em sua constituição aspectos que pertencem ao Criador. A criatividade é um desses aspectos. Veja uma criança com uma garrafinha pet na mão. A garrafa “se transforma” em um carro, em uma boneca, em um foguete, em uma bola de futebol — tudo isso sem se mexer na aparência do objeto. Agora dê um passo além, habilitando tal criança a trabalhos manuais e colocando em sua mão tinta, cola e tesoura: a garrafa se transformará em um mundo de possibilidades. De onde veio tal potencial imaginativo/criativo? De sua semelhança com Deus.

A criatividade também é um chamado de Deus para a vida humana. Conforme a tradição protestante, o Criador deu ao homem alguns mandatos na criação — o mandato espiritual, caracterizado pelo relacionamento direto com o Criador; o mandato social, caracterizado pelo relacionamento com o outro, e o mandato cultural, caracterizado pela relação com o mundo. No mandato cultural, o chamado de Deus envolve o domínio sobre a criação e a produção de cultura (Gn1.26–28; Gn.2.15). Originalmente, a cultura estava relacionada ao cultivo do jardim de Deus, mas a ordem para dar nomes aos animais já expressava a vocação para um trabalho cultural que estava além da agricultura (Gn.2.19). Dar nomes envolve criatividade. Dessa maneira, a criatividade não é apenas o reflexo da imagem de Deus no homem, mas um chamado de Deus; ao dominar a criação, o homem cria possibilidades.

Nós não criamos como Deus. Aquele que possui o mais legítimo direito sobre o termo “Criador” faz as coisas existirem a partir do nada. Deus cria por sua Palavra; dá o comando e as coisas passam a existir (cf. Gn.1). O homem é um criador que trabalha com material já existente. Aqui se encaixa a denominação de alguém que trabalha na área de criatividade — o Murilo Gun. Ele afirma que a criatividade pode ser melhor chamada de “combinatividade”, pois lida basicamente com a combinação de diferentes inputs.

A criatividade no ministério pastoral

Se a criatividade faz parte do homem, seja no artista ou na pessoa tímida que vive inventando imagens e cenários em sua mente, cada área de atuação humana é campo para a sua manifestação. E, certamente, o ministério pastoral não poderia ficar de fora.

Aqui é importante deixar claro a relação entre criatividade e responsabilidade. A criatividade precisa estar relacionada com o campo de atuação e as suas normas. Um piloto de avião “criativo”, que decida tocar música em vez de pilotar a máquina coloca em risco a vida de várias pessoas e não age com criatividade dentro das normas de sua área de atuação. Da mesma maneira, existem normas para o ministério pastoral que orientam o exercício da vocação, e que, desrespeitadas, desqualificam o ministério.

O pastor criativo não é aquele que cria eventos, ou conta piadas, mas aquele que atua dentro do seu chamado combinando os diferentes inputs para servir de maneira fiel. De maneira sintética, a vocação do pastor é para “pastorear o rebanho de Deus” (1 Pe.5.2), guiando as pessoas (Hb.13.7) por meio do ministério da Palavra e oração (At.6.1–4) e treinando os santos para o serviço cristão (Ef.4.11–13). Dentro desse espaço vocacional a criatividade pode desabrochar. E como isso aconteceria?

Como mencionei, a criatividade já está em nós como produto da imagem e semelhança de Deus que nos acompanha. Mesmo os pastores mais conservadores exibem traços de criatividade. Isso fica evidente no campo da pregação.

A pregação como esforço criativo

A tarefa da pregação demanda criatividade. Trata-se da criação de conteúdo para o pastoreio da igreja. Estudar o texto bíblico e explicá-lo à igreja exige do pastor a combinação de palavras e ilustrações que funcionem da melhor maneira para comunicar as verdades. O esforço por exemplos e aplicações é manifestação visível do exercício criativo de um pastor.

A pregação pode ter maior intencionalidade no esforço criativo. Um maior trabalho de texto (exegese) pode ser mesclado com um maior trabalho de exposição (homilética), envolvido em pesquisa e brainstorming, para que haja clareza e comunicação eficaz. A pregação pode ser mais do que uma explicação técnica da passagem, envolvendo a imaginação dos ouvintes, que podem “entrar” no ambiente original do texto, e sair dali com múltiplas aplicações para a realidade presente. O pregador criativo pode envolver os seus ouvintes em sua totalidade, considerando sua dimensão intelectual, emocional e volitiva.

O aconselhamento como esforço criativo

O aconselhamento também demanda criatividade. Como a pregação, também tem por fundamento a boa exegese e boa explicação/aplicação da Escritura aos dilemas da vida. Diferente da pregação, no entanto, o trabalho criativo de um pastor no aconselhamento envolve receber os diferentes inputs das pessoas em crise, e providenciar instrumentos bíblicos para a solução de conflitos. Enquanto a pregação é monólogo, o aconselhamento é diálogo.

O esforço criativo nesse contexto envolve pensar, à luz das Escrituras, em diferentes maneiras de providenciar sabedoria para os dilemas mais variados. A utilização de textos bíblicos, a seleção de livros extra-bíblicos para serem lidos, a escolha de tarefas para serem executadas pelo aconselhado, e as diversas maneiras de “entrar no mundo” daqueles que sofrem demandam inteligência e capacidade de criação do conselheiro.

Um exemplo interessante merece menção aqui. No livro Os conflitos no lar e as escolhas do pacificador1, de Ken Sande e Tom Raabe, os autores lidam com o aconselhamento no contexto de crises familiares. Diante de um conflito de interesses, eles apresentam a negociação como uma das abordagens possíveis para resolver a questão. Indicam uma série de princípios a serem adotados nesse quesito, e um deles envolve a solução criativa.

Após preparar a abordagem, ser assertivo afirmando a importância do outro, e discernir os interesses no conflito, as pessoas com problemas no relacionamento deveriam sentar para solucionar o problema com criatividade. Como fazer isso? Sande e Raabe sugerem o simples método do brainstorming. Por meio dessa prática, eles listarão as mais variadas idéias para solucionar o problema — sem julgar nenhuma proposta inicialmente. Após definir a lista com os diferentes insights, eles passarão à etapa de julgar, para definir quais propostas atendem melhor ao dilema específico. E, então, se comprometer a executar o plano.

Eles trabalham essa sugestão incorporada no caso de uma família, cuja esposa se sente frustrada com a falta de liderança espiritual do marido. Isso deu lugar a ressentimento e brigas, até que finalmente decidiram lidar com a questão. Após os passos iniciais, discerniram os interesses, que envolviam o desejo por liderança espiritual e maior presença no ambiente familiar (por parte da esposa) e dificuldade em gerenciar o tempo (do marido). Sentaram para o brainstorming e listaram as mais variadas possibilidades: que tal se a esposa fizesse as operações bancárias — pagar contas —, para que o marido pudesse chegar do serviço e ter mais tempo com a família? Já que as crianças ficam inquietas à mesa de jantar e fica difícil fazer a devocional com elas ali, que tal fazemos essa devocional antes delas dormirem? E assim listaram as possibilidades. Depois avaliaram quais seriam mais práticas e interessantes, chegando a definir o culto doméstico três vezes por semana, com duração de quinze minutos. Assim, os interesses de ambos seriam contemplados e a questão seria resolvida.

O que é interessante para a nossa discussão? Tanto os autores do livro, que escrevem sobre aconselhamento pastoral, foram criativos em considerar o brainstorming como uma abordagem possível para a resolução de conflitos, quanto o casal em crise foi criativo em pensar soluções. Em alguns casos, o pastor poderá sugerir caminhos de resolução dos conflitos, participando, mesmo que “não oficialmente”, do brainstorming.

Como crescer em criatividade?

Os dois exemplos acima apenas indicam áreas na quais o pastor deve exercer criatividade. É possível ir além, considerando as áreas de treinamento dos santos, formação de líderes, condução da liturgia (a criatividade aqui não estaria em “criar” novos elementos para o culto, mas em dispor os elementos bíblicos com beleza, harmonia e ordem criativa — escolher músicas relacionadas ao sermão e contribuir para a narrativa do evangelho ao longo de todo o culto), etc. Mas como um pastor pode crescer em criatividade?

Embora tenhamos a imagem criativa de Deus em nós, é possível reprimir tal criatividade, ou desenvolvê-la. Isso se dá mediante exercício e criação de hábitos estimulantes.

Um hábito especialmente estimulante é a exposição intencional a diferentes inputs — fontes de informação e experiências. Um pastor que deseja crescer em criatividade deveria, dentro do campo teológico, se expôr a diferentes materiais.

Primeiramente, a exposição deve se dar ao texto bíblico. A criatividade no ministério vem da combinação fundamental dos insights da Palavra de Deus. A Bíblia providencia a sabedoria de Deus para a exposição, o aconselhamento, e toda a base para o ministério de um pastor. A Palavra de Deus não fornece apenas o conteúdo primário de uma exposição ou aconselhamento, mas também o conteúdo secundário, que vem de ilustrações e histórias narradas no texto sagrado. Junto ao estudo do texto bíblico em si, um pastor pode expandir seu set de inputs que lhe permitirão ser mais criativo ao estudar livros relacionados aos textos bíblicos. Comentários, manuais de exegese, dicionários bíblicos poderão aumentar significativamente o seu repertório. Ler sermões de outros pastores sobre variados textos bíblicos também amplia os horizontes de um líder. A leitura permite atravessar o “continuum espaço-tempo”, fazendo-nos sentar nos bancos do Tabernáculo Metropolitano para ouvir Spurgeon pregar, ou à Capela de Westminster, para ouvir Martyn Lloyd-Jones.

O desenvolvimento tecnológico nos permite ir além da leitura e ouvir gravações de sermões, bem como assistir pregações. De John Piper a Augustus Nicodemus, o material disponível em podcasts e no Youtube é amplo e pode fornecer muitos insights para o crescimento de um pastor.

Depois da exposição ao texto bíblico, diretamente, comentado, ou pregado, o repertório pode ser expandido ao estudar a vida dos homens de Deus na história. A criatividade de um líder pode ser estimulada ao considerar as biografias e as maneiras pelas quais homens fiéis passaram por dilemas do ministério. John Piper possui uma série de livros com pequenas biografias de Lutero, Calvino, William Cowper, J. Gresham Machen, etc., que pode ser um excelente ponto de partida2.

Além da exposição a conteúdos relacionados ao texto bíblico ou biografias de líderes cristãos, a criatividade pode ser estimulada por meio da exposição aos mais variados tipos de inputs. Ler jornais, livros e blogs de áreas completamente distintas da teologia, assistir filmes e séries, conversar com pessoas de diferentes estilos pode permitir ao pastor aumentar significativamente o seu repertório, fazer alguma exegese cultural para compreender as questões do seu tempo, e identificar pontos de contato ou de crise para a mensagem cristã.

Ler literatura é especialmente significativo aqui. Habitar mundos imaginários é fundamental para estimular a criatividade e imaginação.

Se a exposição a diferentes inputs fornece repertório para a combinatividade, é necessário dar um passo além e exercitar a criatividade. Uma das maneiras mais práticas de exercitar é por meio da escrita.

Um pastor pode exercitar a criatividade ao produzir textos para a edificação de sua igreja. O trabalho de produção textual forçará a sua mente a pensar em caminhos criativos para melhor entregar a informação desejada. Escrever os sermões também pode ser saudável.

Especificamente no campo da pregação, um pastor pode exercitar a criatividade ao fazer o simples exercício de se imaginar no lugar dos diferentes públicos de sua igreja. Ao elaborar o sermão, o pastor imaginaria como um adolescente responderia ou o que ele perguntaria a respeito da exposição. A partir daí, criaria respostas ou aplicações específicas do sermão para esse adolescente imaginário (baseado em seus adolescentes reais). Em seguida, pensaria nos jovens que estão na universidade ou adentrando a vida profissional: o que eles pensariam da exposição do texto, e de que maneiras poderiam aplicar as verdades do evangelho? O que dizer dos adultos, pais e mães, casais, idosos? — como cada público desses poderia considerar o texto e suas implicações? O trabalho de imaginação pode aumentar a efetividade e clareza na entrega do sermão.

O pastor também pode explorar a técnica do brainstorming para diferentes áreas. Como trabalhar a introdução de um sermão? Defina a meta de escrever 11 maneiras de começar o sermão 3. O exercício imaginativo pode criar resultados impressionantes! Ao lidar com os dilemas do aconselhamento e considerar a sabedoria bíblica para o caso, faça um brainstorming de maneiras de aplicar a sabedoria bíblica ao caso concreto.

Concluindo, sem concluir: começando a criatividade intencional

Talvez você chegue ao final do texto considerando tudo isso como inutilidade não-bíblica: um pastor não precisa de nada além da Bíblia. Eu concordaria, em parte. A Bíblia é tudo o que um pastor precisa para exercer o seu ministério. Mas por que você escolheu esse texto para pregar, e não aquele? Por que esse livro para as exposições sequenciais, e não aquele? Por que escolheu essa maneira de pregar, e não aquela? Por que escolheu essas aplicações, e não aquelas? Tudo isso fala do exercício natural da criatividade/combinatividade de um líder. Como a criatividade faz parte da imagem de Deus em nós, já estamos utilizando-a mesmo sem perceber. A única diferença é que podemos ser intencionais em seu uso, crescendo na área para melhorar a nossa maneira de servir a Deus e aos nossos irmãos.

Inevitavelmente, o trabalho pastoral envolve criação. Que tal “colocar a mão na massa” e ser criativo?


  1. 1 SANDE, Ken; RAABE, Tom. Os conflitos no lar e as escolhas do pacificador: um guia prático para lidar com as crises na família. São Paulo: Nutra publicações, 2011. p.150–153.
  2. 2 Publicadas por duas editoras diferentes — Shedd publicações e Tempo de colheita, os títulos são “O legado da alegria soberana”, “O sorriso escondido de Deus”, “Completando as aflições de Cristo” e “Lutando pela verdade”.
  3. 3 A idéia de escrever 11 maneiras é uma adaptação da técnica do comediante Léo Lins. Cf. LINS, Léo. Segredos da comédia stand-up. São Paulo: Panda Books, 2014. p.39–45.

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